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INFLAÇÃO DE FEVEREIRO: COMPOSIÇÃO DO ÍNDICE SEGUE PREOCUPANTE

A divulgação do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) pelo IBGE, na última quarta-feira (12), confirmou uma alta de 1,31% em fevereiro, a maior para o mês em quase 22 anos. Embora o resultado já fosse amplamente esperado, a preocupação do mercado não está na magnitude do índice, mas na sua composição.

Com a alta acumulada de 1,47% no ano, o IPCA já alcança quase metade da meta estabelecida pelo Banco Central (Bacen). Nos últimos 12 meses, o indicador chegou a 5,06%, superando os 4,56% registrados no período anterior. Em fevereiro de 2024, a variação havia sido de 0,83%. Dessa forma, a inflação segue acima da banda superior da meta, reforçando um cenário desafiador para a política monetária. O resultado não surpreendeu, porque diversos fatores pontuais já apontavam para esse movimento, destacando-se o fim da devolução do bônus da Itaipu na conta de energia elétrica, o reajuste das mensalidades escolares e o aumento das tarifas de ônibus urbanos. Esses elementos impactaram profundamente o índice.

A atividade de educação registrou a maior alta, com 4,7%, contribuindo com 0,28 ponto porcentual (p.p.) para o IPCA do mês. Já o segmento de habitação, estimulado pelo aumento na energia elétrica, subiu 4,44%, adicionando 0,65 p.p. ao índice. Transportes também obtiveram alta, de 0,61%. Somados, esses grupos foram responsáveis por 1,06% no resultado total. Contudo, um aspecto estrutural da inflação segue preocupando: a pressão sobre alimentação e serviços. No primeiro caso, desacelerou de 0,96%, em janeiro, para 0,7%, em fevereiro, mas ainda em patamar elevado. No domicílio, os alimentos subiram 0,79%, um alívio em comparação com janeiro (1,07%), mas ainda pressionando o orçamento das famílias de menor renda. Fora do domicílio, por sua vez, a alta foi de 0,47%, contra 0,67% no mês anterior.

 

A percepção da inflação segue forte no dia a dia. Os preços dos alimentos continuam subindo acima dos reajustes salariais, corroendo o poder de compra da população e afetando a popularidade do governo. Outro ponto crítico é o setor de serviços, um importante termômetro da demanda agregada, com o índice de inflação calculado pela XP crescendo de 0,78%, em janeiro, para 0,82%, em fevereiro, o que representa uma inflação anualizada próxima de 10%. Esse comportamento indica uma economia aquecida, reforçando entraves para a política monetária.

Além disso, o resultado do IPCA confirma o cenário de política fiscal expansionista — e, ainda que o dado não tenha surpreendido, a sua composição segue alarmante. Sem espaço para alívio inflacionário, o Bacen pode ser forçado a manter juros elevados por mais tempo. Por isso, a necessidade de ajuste fiscal é cada vez mais urgente. Reduzir os gastos públicos é essencial para aliviar a pressão inflacionária, evitando continuar “jogando gasolina na fogueira” — caso contrário, o trabalho da autoridade monetária se tornará insustentável. Distribuir mais recursos à população não terá efeito positivo se o poder de compra continuar se deteriorando.