BANCO CENTRAL NAVEGA BEM EM ÁGUAS TURBULENTAS
Na última reunião, realizada no dia 19 de março, o Comitê de Política Monetária (Copom) decidiu elevar a taxa básica de juros em 1 ponto porcentual (p.p.), mantendo-se em linha com as expectativas do mercado. Essa deve ser a última alta dessa magnitude, marcando, em breve, o fim do atual ciclo de aperto monetário.
Em um cenário turbulento, o Banco Central (Bacen) atestou técnica e resiliência ao lidar com um mercado altamente ansioso, impactado pela ausência de uma política fiscal mais austera.
A conjuntura internacional, com o governo de Donald Trump adotando medidas que enfraquecem o dólar, contribuiu para a estabilidade recente, mas não é o único fator que explica a maior tranquilidade do mercado quanto à política financeira.
O uso do forward guidance [mecanismo que permite aos bancos centrais ajustar a política monetária de um país], em um momento no qual agentes financeiros pressionavam por aumentos superiores a 1 p.p. — aliado a atas e comunicados claros —, consolidou a credibilidade do Bacen.
No comunicado divulgado após a decisão, o Copom reafirmou o compromisso com a convergência da inflação para a meta e listou os motivos que ainda justificam a elevação da taxa, ao mesmo tempo que sinalizou uma moderação no ritmo dos ajustes. E essa estratégia parece acertada.
Apesar das surpresas negativas do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de fevereiro e da ancoragem ainda parcial das expectativas inflacionárias, já se observa um desaquecimento econômico e menor volatilidade cambial, com indícios de estabilização do real frente ao dólar.
Ademais, a percepção de que a política econômica de Trump pode gerar dúvidas e uma desaceleração na economia norte-americana também influencia a dinâmica mundial.
Vale lembrar que os efeitos da política financeira não são imediatos. Estudos apontam que o impacto das decisões sobre a taxa de juros pode levar pelo menos seis meses para se refletir plenamente na economia. Assim, parte dos efeitos do atual ciclo de alta ainda se manifestará nos próximos meses, conforme indicam alguns dados do início do ano.
Ainda assim, a Selic segue em um patamar muito elevado — e apenas um ajuste na política fiscal pode reverter esse quadro. O alto custo do crédito afeta empresas e trabalhadores, comprimindo investimentos e o consumo. Além disso, qualquer sinal de expansão pode comprometer o frágil equilíbrio alcançado até o momento.
Aqui, ainda é importante reforçar que os atuais níveis de juros são incompatíveis com um crescimento sustentável. Empresários e consumidores continuam sendo penalizados pela falta de disciplina fiscal. Reconhecer o bom trabalho do Bacen não significa que o cenário seja positivo. Pelo contrário, a retomada econômica requer uma redução sustentável das taxas de juros, o que depende, essencialmente, de uma política fiscal mais austera.
Enquanto essa condição não for atendida, consumidores e empresas continuarão arcando com os custos de um ambiente macroeconômico desafiador. A autoridade monetária, por sua vez, segue cumprindo o seu papel com rigor e responsabilidade.